Grande nuvem de gafanhotos encobre estradas e ameaça lavouras no sul da Rússia
07 de ago de 2026 - 21:37:36

Por: Melquisedeque J. Santos | MTB: 0098469/SP - Vale Jornalismo Online

Uma grande nuvem de gafanhotos tomou conta de estradas e áreas rurais do distrito de Kizlyar, na República do Daguestão, sul da Rússia. As imagens, registradas entre os dias 3 e 5 de agosto de 2026, mostram milhares de insetos atravessando rodovias, atingindo veículos e reduzindo a visibilidade dos motoristas.

Os vídeos rapidamente ganharam repercussão nas redes sociais e foram compartilhados por páginas de diferentes países. Apesar do aspecto impressionante, o fenômeno é verdadeiro e foi confirmado por veículos de comunicação e autoridades agrícolas da região.

Segundo informações divulgadas pelo Centro Agrícola Russo no Daguestão, uma grande concentração de gafanhotos-migratórios asiáticos foi localizada no distrito de Kizlyar. Equipes e equipamentos foram enviados à região para realizar o tratamento das áreas atingidas e impedir que os insetos avançassem sobre novas plantaçõe

As operações envolveram pulverizações terrestres e aéreas. Até o dia 6 de agosto, autoridades regionais informaram que mais de 50 mil hectares haviam recebido algum tipo de tratamento contra gafanhotos em diferentes localidades do Daguestão. Esse número, contudo, refere-se ao conjunto das operações realizadas na república russa, e não apenas ao distrito de Kizlyar.

Ocorrência já havia sido prevista

O aparecimento dos enxames não ocorreu de maneira completamente inesperada. Em maio de 2026, o Ministério de Situações de Emergência da Rússia publicou um relatório nacional alertando para o possível crescimento e reprodução em massa de diferentes espécies de gafanhotos.

O documento mencionava especificamente o Daguestão como uma das áreas sob risco de aumento das populações do gafanhoto-migratório asiático e do gafanhoto-marroquino. As autoridades russas estimavam a necessidade de aplicação de inseticidas em aproximadamente 434 mil hectares no país ao longo de 2026.

As condições climáticas e ambientais exercem influência direta na reprodução desses insetos. Períodos de calor, disponibilidade de alimento e condições favoráveis do solo podem provocar um rápido crescimento populacional. Quando atingem altas densidades, os gafanhotos mudam de comportamento, tornam-se gregários e passam a se deslocar coletivamente, formando grandes enxames.

Risco para a produção agrícola

Embora as imagens das estradas tenham chamado mais atenção, a principal preocupação está nas áreas agrícolas. Grandes enxames podem consumir plantações e pastagens, provocando prejuízos a agricultores e criadores de animais.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura explica que os gafanhotos em fase gregária podem formar grupos extremamente móveis. Algumas espécies são capazes de percorrer longas distâncias, principalmente quando encontram ventos favoráveis.

Entretanto, é preciso cautela ao utilizar números divulgados nas redes sociais. Até o momento, não existe uma medição independente que determine a quantidade exata de insetos presente no enxame registrado em Kizlyar. Expressões como “bilhões de gafanhotos” ou “destruição total das lavouras” não foram comprovadas oficialmente.

Também não há ainda um levantamento público consolidado sobre a extensão das plantações destruídas nem sobre o prejuízo financeiro causado aos produtores locais. O governo regional afirma que a situação está sob controle e que o risco de perdas generalizadas foi reduzido, mas essa avaliação ainda depende de acompanhamento e verificação independente.

Combate também exige fiscalização ambiental

O uso de aeronaves e máquinas terrestres pode reduzir a presença dos gafanhotos, mas a pulverização de inseticidas precisa ser fiscalizada. Aplicações inadequadas podem atingir abelhas e outros polinizadores, contaminar cursos de água e prejudicar organismos que não representam ameaça às plantações.

A FAO recomenda que o controle de gafanhotos seja acompanhado por monitoramento ambiental, identificação correta das espécies e vigilância das áreas de reprodução. O combate realizado somente quando os enxames já estão formados tende a ser mais caro e menos eficiente do que ações preventivas.

O episódio no Daguestão demonstra a importância dos sistemas de alerta e do acompanhamento contínuo das condições climáticas e agrícolas. Também evidencia a necessidade de separar informação confirmada de linguagem sensacionalista: as imagens são reais e o problema agrícola existe, mas a dimensão completa dos prejuízos ainda está sendo apurada.

Até agora, não existe qualquer indicação de que o enxame registrado na Rússia represente ameaça ao Brasil ou ao Vale do Ribeira. Trata-se de uma ocorrência regional, relacionada às condições ambientais e agrícolas daquela parte do território russo.

Fontes consultadas: Centro agrícola do Daguestão, citado pelo AIF, relatório oficial do Ministério de Emergências da Rússia e Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.